Comentario do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento
G. K. Beale e D. A. Carson, organizadores
1. Identidade e escopo
Este volume e um comentario de referencia que percorre o Novo Testamento inteiro para examinar como seus autores citam, aludem, ecoam, desenvolvem e aplicam o Antigo Testamento. O projeto foi organizado por G. K. Beale e D. A. Carson e realizado por uma equipe ampla de especialistas. Cada colaborador assume um livro ou conjunto de livros do Novo Testamento, identifica as referencias provaveis ao Antigo e comenta sua funcao textual, historica, hermeneutica e teologica.
O objeto principal nao e o Antigo Testamento isoladamente, nem uma historia geral da exegese judaica, nem uma teologia sistematica completa. O foco e a relacao entre um texto anterior e sua reutilizacao em um documento posterior. A pergunta central nao e apenas qual era o significado de Isaías, Salmos, Genesis, Exodo ou Deuteronomio em seu contexto original. E tambem: o que acontece quando Mateus, Paulo, Hebreus ou Apocalipse retomam esse texto dentro de um novo argumento, depois dos acontecimentos que o cristianismo identifica como morte, ressurreicao, exaltacao e retorno de Jesus?
O livro reune mais de mil paginas de comentario e bibliografia especializada. Sua amplitude e uma de suas maiores virtudes, mas tambem define o tipo de resumo adequado. Nao basta apresentar uma tese geral sobre intertextualidade e citar dois exemplos. E preciso mostrar a arquitetura, o metodo, as diferencas entre os corpora e os padroes que emergem do conjunto de casos.
2. A arquitetura editorial real
O arquivo consultado abre com abreviaturas, lista de colaboradores, prefacio e introducao. A parte principal se organiza segundo os livros do Novo Testamento:
- Mateus, comentado por Craig L. Blomberg;
- Marcos, por Rikk E. Watts;
- Lucas, por David W. Pao e Eckhard J. Schnabel;
- Joao, por Andreas J. Kostenberger;
- Atos, por I. Howard Marshall;
- Romanos, por Mark A. Seifrid;
- 1 Corintios, por Roy E. Ciampa e Brian S. Rosner;
- 2 Corintios, por Peter Balla;
- Galatas, por Moises Silva;
- Efesios, por Frank S. Thielman;
- Filipenses, por Moises Silva;
- Colossenses, por G. K. Beale;
- 1 e 2 Tessalonicenses, por Jeffrey A. D. Weima;
- 1 e 2 Timoteo e Tito, por Philip H. Towner;
- Hebreus, por George H. Guthrie;
- Tiago, 1 Pedro, 2 Pedro, 1-3 Joao e Judas, por D. A. Carson;
- Apocalipse, por G. K. Beale e Sean M. McDonough.
Essa organizacao por livro conserva as particularidades de cada autor. Mateus frequentemente explicita cumprimento com formulas reconheciveis. Marcos e Lucas trabalham com temas, alusoes e molduras narrativas. Joao constroi redes de simbolos e alusoes. Paulo usa a Escritura dentro de argumentos sobre promessa, lei, fe, povo de Deus, cruz e nova criacao. Hebreus organiza sua cristologia e sua teologia do sacrificio em torno de textos e instituicoes da antiga alianca. Apocalipse incorpora imagens de quase todo o canon sem depender de longas citacoes formais.
3. O projeto dos organizadores
O prefacio apresenta o projeto como resultado de anos de trabalho, revisao e interacao entre organizadores e colaboradores. O objetivo foi reunir em um unico volume evidencia que antes estava dispersa em artigos, monografias, comentarios tecnicos e estudos especializados. A obra nao pretende que todas as questoes teoricas sejam resolvidas no prefacio. Ela escolhe concentrar energia nos textos efetivamente citados ou aludidos pelo Novo Testamento.
Essa escolha produz um comentario mais empirico do que uma introducao geral ao tema. O leitor nao recebe apenas uma teoria sobre o que deveria ser uma citacao. Ele acompanha muitos exemplos, verifica a relacao entre contexto do Antigo e do Novo Testamento e observa como diferentes colaboradores lidam com graus de certeza.
Os organizadores deixam claro que o volume nao e um tratado completo sobre todos os debates atuais. Ele nao compara de maneira sistematica metodos nao judaico-cristaos com os metodos do Novo Testamento, nao apresenta uma historia integral da tipologia posterior a Goppelt e nao resolve toda a discussao entre aqueles que defendem o respeito integral ao contexto veterotestamentario e aqueles que veem nos autores do Novo uma utilizacao mais livre dos textos.
Essa autolimitacao e metodologicamente honesta. O livro pressupoe conhecimento desses debates, aplica parte da pesquisa contemporanea e oferece muitos dados concretos para que o leitor os retome. Sua funcao e servir como base documental e exegetica ampla, nao substituir a totalidade da teoria hermeneutica.
4. O metodo das seis perguntas
Os organizadores sugerem seis perguntas para orientar o comentario de cada citacao ou alusao significativa.
4.1 Contexto do Novo Testamento
Primeiro, deve-se examinar o contexto do documento neotestamentario. Qual e o tema do trecho? Como a passagem avanca? Qual e seu genero, estrutura literaria e funcao retorica? Uma citacao pode servir para confirmar uma afirmacao, concluir uma prova, introduzir um conflito, interpretar uma acao de Jesus, advertir uma igreja ou abrir uma perspectiva escatologica.
Essa etapa impede que o versiculo neotestamentario seja isolado de sua unidade. Uma frase de Paulo pode depender do raciocinio de varios paragrafos; uma formula de Mateus pode interpretar toda a cena do nascimento; uma alusao do Apocalipse pode adquirir sentido pelo conjunto da visao e nao apenas pela imagem individual.
4.2 Contexto do Antigo Testamento
Segundo, deve-se voltar ao contexto veterotestamentario. O trabalho nao termina quando se encontra uma semelhanca verbal. E necessario perguntar qual e a funcao da passagem em seu livro, que personagens e temas a cercam, e como o proprio Antigo Testamento desenvolve essa imagem mais adiante.
Os organizadores levantam um problema decisivo: quando Marcos emprega temas do exodo, deve-se olhar apenas para Exodo, ou tambem para a maneira como Isaías retoma e reconfigura o exodo? Quando 2 Pedro evoca o diluvio, a leitura deve considerar Genesis isoladamente, ou tambem o uso do diluvio em outros textos do Antigo Testamento e em tradicoes anteriores ao documento? O contexto de origem inclui o desenvolvimento canonico da referencia.
4.3 Judaísmo do Segundo Templo e judaísmo antigo
Terceiro, deve-se considerar como a passagem veterotestamentaria foi tratada na literatura judaica antiga. Essa literatura nao recebe automaticamente a mesma autoridade das Escrituras, mas ajuda a iluminar o ambiente interpretativo. Pode mostrar leituras contemporaneas, trajetorias de interpretacao, divergencias entre grupos, usos especificos de um genero e possiveis contatos literarios.
O comentario evita uma conclusao simplista do tipo “se um metodo aparece no judaísmo antigo, o Novo Testamento apenas o copia”. Tecnicas semelhantes podem produzir conclusoes diferentes porque as premissas, os eventos interpretativos, os oponentes e os objetivos pastorais sao diferentes. A comparacao e util para compreender possibilidades, nao para apagar a singularidade do argumento cristao.
4.4 Texto hebraico, Septuaginta e variantes
Quarto, e preciso investigar fatores textuais. O Novo Testamento cita o texto massoretico, a Septuaginta, um targum, uma tradicao textual hoje perdida, uma combinacao de formas ou uma memoria textual? Uma pequena alteracao pode resultar de escolha consciente, da traducao grega, de uma variante ou da adaptacao retorica.
Essa pergunta e particularmente importante porque o texto do Antigo Testamento circulava em mais de uma forma. A semelhanca ou diferenca entre a citacao neotestamentaria e o texto hebraico medieval nao resolve sozinha a intencao do autor. E necessario considerar a historia textual e o fato de que o Novo Testamento foi escrito em grego, muitas vezes em dialogo com a Septuaginta.
4.5 Tipo de uso
Quinto, depois do trabalho de contexto e texto, pergunta-se qual relacao esta sendo estabelecida. Pode ser citacao direta, alusao, eco linguistico, uso de uma formula biblica generica, analogia moral, tipologia, cumprimento profetico, cumprimento tipologico, apropriacao de um padrao ou adaptacao de uma tradicao interpretativa.
Nem todo uso tem o mesmo grau de intencionalidade ou especificidade. Uma expressao pode fazer parte da linguagem biblica do autor sem apontar para um versiculo determinado. Uma alusao pode condensar um campo tematico inteiro. Uma citacao explicita pode depender de seu contexto original, mas exercer uma funcao nova dentro da argumentacao neotestamentaria.
4.6 Aplicacao teologica
Sexto, pergunta-se o que a relacao significa teologicamente. O uso contribui para uma doutrina sobre Jesus, Israel, a igreja, a salvacao, a promessa, a lei, o templo, o Espirito, o juizo, a nova criacao ou a missao? Essa pergunta nao e um apendice devocional. Ela mostra por que o autor escolheu aquela referencia e como a Escritura participa da construcao de seu argumento.
5. Tese operante e pressupostos
O volume nao apresenta uma tese unica no formato de uma monografia, mas trabalha com conviccoes identificaveis. Os autores do Novo Testamento tratam o Antigo Testamento como Escritura autorizada; leem seus textos dentro de uma unidade historica e teologica; e entendem que a vida, morte, ressurreicao e exaltacao de Cristo revelam a direcao plena de promessas, padroes e temas que ja estavam em desenvolvimento.
Isso nao significa que o Novo Testamento repita o sentido do Antigo sem mudanca. O evento cristologico reorganiza a leitura. A historia de Israel e lida como historia que encontra seu representante e consumador em Jesus; a promessa feita a Abraao e relida em relacao a Cristo e aos gentios; o templo, o sacrificio e o sacerdocio sao levados a um novo cumprimento; o juizo e a nova criacao sao projetados para a consumacao.
Tambem nao significa que os autores do Novo Testamento considerassem sua propria leitura uma opcao privada. O prefacio insiste que eles se viam submissos a autoridade dos documentos da antiga alianca, ainda que os interpretassem a luz da nova realidade. A novidade cristologica e apresentada como cumprimento, desenvolvimento e revelacao, nao como autorizacao para descartar o Antigo Testamento.
6. Cumprimento, tipologia e desenvolvimento canonico
6.1 Cumprimento preditivo
Em alguns casos, o Novo Testamento afirma que um acontecimento realiza uma previsao textual. A formula de cumprimento de Mateus e o exemplo mais visivel. Mesmo nesses casos, o comentario pergunta mais do que “a profecia foi realizada?”. Pergunta o que a previsao significava, como a linguagem foi traduzida, que elementos foram mantidos ou alterados e qual funcao o cumprimento tem na narrativa.
6.2 Cumprimento tipologico
Em outros casos, um acontecimento anterior funciona como padrao que se repete e se intensifica. O exodo, o deserto, o filho, o rei, o templo, o sofrimento do justo e a restauracao de Israel podem formar tipos historico-salvificos. A tipologia nao e uma semelhanca aleatoria. Requer correspondencia real entre acontecimentos, desenvolvimento dentro da historia da revelacao e uma consumacao que ultrapassa o primeiro evento.
Jesus pode recapitular Israel, Davi, Moises ou o servo sem ser reduzido a uma repeticao. A repeticao e transformada pela identidade do Messias e pelo estagio escatologico inaugurado. O que era parcial se torna pleno; o que era corporativo se concentra no representante; o que era simbolico recebe corpo historico.
6.3 Analogia moral
Algumas passagens usam acontecimentos antigos como advertencia ou encorajamento. Israel saiu do Egito, mas uma geracao nao perseverou; portanto, a comunidade cristã deve permanecer firme. O diluvio e associado a juizo; a desobediencia no deserto se torna advertencia. A analogia moral nao precisa afirmar que o evento antigo era uma profecia detalhada do novo. Ela pode depender de um padrao de acao divina e responsabilidade humana.
6.4 Linguagem biblica como ambiente mental
O autor neotestamentario pode usar uma formula porque sua mente e formada pelas Escrituras. Nem sempre a ocorrencia constitui uma citacao formal ou uma argumentacao baseada em um versiculo especifico. O vocabulário de dia do Senhor, luz, trevas, filho, caminho, pastor, templo, guerra e heranca pode ser mobilizado como linguagem de um mundo biblico compartilhado.
Essa possibilidade nao torna toda semelhanca relevante. O comentario procura avaliar probabilidade, contexto, densidade de sinais e funcao. O cuidado e necessario porque uma obra sobre alusoes pode facilmente transformar qualquer palavra comum em referencia oculta.
6.5 Misterio revelado
Uma das tensoes mais importantes do livro e a relacao entre promessa e misterio. O evangelho pode ser anunciado como algo prometido nas Escrituras e, simultaneamente, como algo escondido ate ser revelado. Isso significa que a realidade estava vinculada a padroes e promessas, mas nao era inteiramente visivel antes do evento que a revelou.
A imagem da semente ajuda a explicar o principio: uma semente possui organicamente elementos da arvore, embora o observador nao veja ainda sua forma completa. O cumprimento nao e uma invencao sem ligacao, mas tambem nao precisa ser perceptivel em sua plenitude ao leitor do primeiro contexto. Essa relacao protege tanto a continuidade quanto a novidade.
7. Padroes teologicos transversais
7.1 Jesus como locus escatologico de Israel
O comentario mostra repetidamente como Jesus concentra em si a historia e a vocacao de Israel. Mateus 2.13-15, com a relacao entre a ida ao Egito e Oseias 11.1, e um caso decisivo. A passagem de Oseias fala originalmente da historia de Israel como filho chamado do Egito. Mateus aplica essa linguagem a Jesus porque ve nele o representante que recapitula a historia do povo e a conduz ao cumprimento.
O padrao se amplia na tentacao do deserto. Jesus passa por uma prova que evoca os quarenta anos de Israel, mas responde com fidelidade onde Israel falhou. O Novo Testamento nao esta apenas extraindo frases de Deuteronomio. Esta apresentando uma pessoa cuja historia refaz e completa uma historia coletiva.
7.2 Igreja como povo da nova alianca
Textos que falavam de Israel sao aplicados a comunidades cristas. O comentario nao trata isso como apagamento automatico de toda referencia a Israel. A relacao passa por Cristo como representante. O povo unido a Cristo participa de sua identidade e de suas promessas, mas o modo dessa participacao precisa ser discernido em cada contexto.
Essa dinamica afeta temas de exodo, templo, sacerdocio, santidade, heranca, peregrinacao e missao. A igreja pode ser descrita como comunidade do exodo e como casa espiritual porque participa da obra de Cristo, nao porque o Antigo Testamento deixou de ter historia propria.
7.3 Textos sobre YHWH aplicados a Jesus
Em muitas passagens, textos do Antigo Testamento referentes ao Senhor sao aplicados a Jesus. Em outras, Deus e apresentado como aquele que envia o Messias. As duas linhas aparecem juntas: Jesus recebe predicados e textos associados a YHWH e, ao mesmo tempo, permanece distinto do Pai que o envia.
O comentario observa que esse conjunto de leituras fornece material central para a cristologia e, posteriormente, para a formulacao trinitaria. A doutrina nao e imposta artificialmente sobre textos indiferentes. Ela se desenvolve na tensao entre unidade de identidade divina, distincoes pessoais e cumprimento messianico.
7.4 Historia da salvacao
A leitura neotestamentaria frequentemente organiza os acontecimentos em sequencia: promessa, patriarcas, exodo, lei, monarquia, exilio, retorno, expectativa messianica, Cristo, Espirito e consumacao. Galatas 3 e um exemplo de como Paulo interpreta a lei em relacao temporal com a promessa abraamica. Romanos 4 mostra como Abraao e lido antes e acima da lei mosaica em relacao a justificacao e a promessa aos gentios.
O sentido de um mandamento ou instituicao muda conforme sua posicao na historia. A antiga alianca nao e uma realidade eterna e imutavel no mesmo formato; ela prepara, testemunha e aponta para uma nova etapa. O comentario chama atencao para o fato de que a escatologia ja comecou com Cristo, embora aguarde consumacao futura.
8. Percurso por Mateus
Mateus ocupa uma parte extensa e modelar. O colaborador trabalha com genealogia, nascimento, infancia, ensino, milagres, conflitos, paixao e ressurreicao em relacao a textos e temas do Antigo Testamento.
8.1 Genealogia e realeza
A genealogia situa Jesus em relacao a Abraao e Davi. Ela apresenta a identidade messianica dentro da historia da promessa e da realeza. A presenca de mulheres e de episodios moralmente complexos impede uma leitura de linhagem como simples propaganda sem tensao. A genealogia carrega temas de pecado, exilio, promessa, inclusao e providencia.
8.2 Nascimento, Emanuel e cumprimento
As narrativas de nascimento usam Isaías, Miqueias e outros temas para interpretar identidade e localizacao de Jesus. A formula de Emanuel e lida no campo da presenca divina, enquanto Belem e relacionada a expectativa do governante. O comentario pergunta como Mateus usa a tradicao textual e como o contexto de cada profecia participa da narrativa.
8.3 Egito, filho e recapitulação
O caso de Oseias 11.1 e central. Mateus nao trata “do Egito chamei meu filho” como se Oseias tivesse escrito uma previsao isolada sobre uma futura viagem de Jesus. Ele reconhece a historia de Israel e a aplica a Jesus como Filho representativo. A vida de Jesus recapitula a historia do povo: descida, retorno, deserto, prova, obediencia e reinado.
8.4 Sermão, lei e novo Moises
O ensino de Jesus e situado em relacao a Moises, Sinai, lei, sabedoria e profecia. Jesus nao e simplesmente outro legislador que substitui a lei por regras novas. O comentario investiga como Mateus apresenta intensificacao, cumprimento e autoridade. A formula de que Jesus cumpre a lei precisa ser lida no conjunto do evangelho, incluindo praticas de pureza, sabado, jejum, divorcio, amor aos inimigos e reino.
8.5 Paixao e rei sofredor
Salmos, Isaías, Zacarias e temas de rei, pastor, servo e justo sofredor convergem na paixao. A realeza de Jesus se manifesta paradoxalmente em rejeicao, julgamento e cruz. O comentario acompanha como Mateus apresenta a morte nao como interrupcao de uma carreira messianica, mas como ponto em que os padroes biblicos se cruzam.
9. Marcos, Lucas e Atos
9.1 Marcos e o exodo
Marcos e tratado com atencao a temas de exodo, deserto, caminho, agua, alimentacao, conflito e manifestacao divina. O colaborador enfrenta a questao metodologica de saber se certos temas marcan uma alusão consciente ao exodo ou se pertencem a um campo biblico mais amplo, filtrado tambem por Isaías e outros profetas.
O inicio do evangelho articula voz no deserto, preparacao do caminho, batismo e entrada em conflito. O caminho de Jesus se torna caminho de discipulado e sofrimento. A linguagem de reino, cegueira, endurecimento e alimentacao retoma trajetorias de Israel sem reproduzi-las simplesmente.
9.2 Lucas e Atos: promessa, Espirito e missao
Lucas-Atos le a historia de Jesus e da igreja como continuidade da historia de Israel e expansao para as nacoes. Isaías, Joel, Salmos, Deuteronomio e outros textos ajudam a interpretar o nascimento, o ministerio, a rejeicao, a ressurreicao, o Espirito e a missao.
Em Atos, discursos apostolicos nao sao apenas resumos de experiencias. Eles usam Escritura para explicar por que a morte e a ressurreicao de Jesus, o derramamento do Espirito e a entrada dos gentios pertencem ao plano de Deus. A leitura de Salmos sobre o rei, de Joel sobre o Espirito e de profetas sobre restauracao convergem para uma historia que ja entrou na fase escatologica.
10. Joao
Joao trabalha com menos citacoes formais extensas e mais com redes de simbolos e cumprimentos. O comentario destaca temas de templo, gloria, cordeiro, pascoa, agua, maná, pastor, sabedoria e novo exodo.
O prologo e lido em relacao a Genesis, Palavra, sabedoria e presenca divina. As festas judaicas e os sinais de Jesus sao apresentados como pontos de releitura de instituicoes e expectativas de Israel. Agua, pao, luz e vida nao sao apenas imagens universais; recebem densidade dentro do vocabulario biblico e do enredo do evangelho.
Na paixao, Joao 19.36 e uma ancora importante. A ausencia de quebra dos ossos e relacionada a temas pascais e a Escritura. A transfixao, o sepultamento e a realeza do crucificado tambem sao lidos dentro de um campo de cumprimento. O comentario nao precisa afirmar que cada detalhe e uma citacao formal para mostrar que a cena inteira esta teologicamente moldada pelas Escrituras.
11. Paulo
11.1 Romanos
Romanos articula lei, pecado, promessa, Abraao, Davi, ira, remanescente, gentios, oliveira, nova obediencia e consumacao. O Antigo Testamento participa do argumento desde a revelacao da justica de Deus ate a promessa de restauracao de Israel.
Romanos 4 e particularmente importante. Abraao e colocado antes da lei e circuncisao como figura de justificacao pela fe e pai de gentios e judeus. A leitura de Genesis nao e um apelo a um versiculo isolado, mas uma reconstrução temporal e teologica. Paulo interpreta a promessa conforme sua prioridade historica e seu cumprimento em Cristo.
Romanos 9-11 usa Genesis, Exodo, profetas e salmos para tratar de eleicao, endurecimento, remanescente, gentios e misericordia. O comentario precisa manter juntas a soberania de Deus, a responsabilidade humana, a historia de Israel e a inclusao dos gentios. A linguagem de oliveira mostra continuidade e enxerto, nao uma simples substituicao indiferenciada.
11.2 1 e 2 Corintios
Em Corintios, Paulo usa o exodo como advertencia, textos de criacao, sabedoria, culto, ressurreicao e juizo. 1 Corintios 10 apresenta Israel como exemplo para uma comunidade que recebeu privilegios e, ainda assim, pode cair em idolatria e incredulidade. A tipologia tem funcao pastoral: a experiencia sacramental nao elimina a necessidade de perseveranca.
A loucura da cruz e colocada em relacao a sabedoria humana e a expectativa biblica de uma acao divina que subverte orgulho. O contraste entre Adao e Cristo, corpo natural e corpo espiritual, morte e ressurreicao retoma a historia da criacao e sua consumacao.
2 Corintios desenvolve temas de nova alianca, gloria, veu, criacao, exodo, ministerio e reconciliacao. A antiga e a nova alianca nao sao comparadas de maneira rasa. O comentario observa continuidade de Escritura e descontinuidade de ministerio, gloria e acesso, todos reinterpretados em Cristo e no Espirito.
11.3 Galatas
Galatas 3 e um dos lugares em que a ordem historica se torna argumento teologico. A promessa a Abraao antecede a lei; a lei tem uma funcao posterior e provisoria; Cristo e a descendencia e, nele, os gentios participam da promessa. O comentario mostra que Paulo nao esta respondendo apenas a uma pergunta atemporal sobre como agradar a Deus. Ele esta argumentando a partir da sequencia dos atos de Deus na historia.
11.4 Efesios, Filipenses e Colossenses
Efesios trabalha com misterio, uniao de judeus e gentios, templo, nova humanidade, armadura e conflito espiritual. Efesios 6.10-17 e ancorado em imagens de Isaías sobre o guerreiro e a armadura de Deus, agora aplicadas a crentes que participam da batalha escatologica. A comunidade e apresentada como templo e corpo, mas as imagens precisam ser lidas junto com a reconciliacao realizada por Cristo.
Filipenses usa temas de cidadania, humilhacao, exaltacao, obediencia e comunidade. O hino cristologico nao flutua fora da Escritura; ele dialoga com o padrao do servo, a soberania de Deus e a linguagem de confissao universal. O chamado a imitar Cristo e uma aplicacao moral da leitura cristologica.
Colossenses concentra temas de imagem, criacao, sabedoria, plenitude, templo, reconciliacao e nova humanidade. A analise de Colossenses 1.19, entre outros pontos, mostra como a plenitude de Deus em Cristo reconfigura temas de presenca divina. Cristo e apresentado nao apenas como agente da salvacao individual, mas como centro cosmico da nova criacao.
11.5 Tessalonicenses e Pastorais
As cartas aos Tessalonicenses usam linguagem de dia do Senhor, ira, vigilia, paz, juizo e esperança. O comentario examina como imagens profeticas sao aplicadas a uma comunidade que vive entre a inauguracao e a consumacao. A escatologia nao e um calendario desligado da etica; ela sustenta sobriedade, perseveranca e santidade.
Nas Pastorais, o uso do Antigo Testamento aparece em temas de criacao, lei, ordem, autoridade, piedade, falsa doutrina e responsabilidade comunitaria. A leitura precisa considerar a situacao pastoral das cartas e nao transformar cada mencao de lei ou genealogia em tese abstrata sobre todo o corpus paulino.
12. Hebreus
Hebreus possui uma relacao estrutural com o Antigo Testamento. Salmos, Genesis, Exodo, Levitico, Jeremias e a tradicao do tabernaculo sustentam a identidade de Jesus como Filho, sacerdote, mediador e sacrificio.
O Salmo 2, o Salmo 110 e outros salmos reais alimentam a cristologia. A filiacao de Jesus nao e apenas titulo messianico no sentido politico; envolve uma relacao superior com anjos, Moises e sacerdotes. O autor constrói sua argumentacao por uma rede de textos, e nao pela leitura isolada de um oraculo.
O sacerdocio de Melquisedeque e lido como padrao que permite compreender a singularidade do sacerdocio de Cristo. O comentario mostra que a tipologia nao consiste em declarar o antigo culto irrelevante. O culto levitico e real dentro de sua ordem, mas aponta para uma obra que supera repeticao, sangue animal e acesso limitado.
Jeremias 31 e a promessa de nova alianca. Hebreus usa a passagem para explicar interiorizacao da lei, perdao e superioridade da alianca mediada por Cristo. O descanso, o deserto e a perseveranca ligam teologia e advertencia pastoral: privilegio recebido nao dispensa fidelidade.
13. Tiago, Pedro, Joao e Judas
13.1 Tiago
Tiago retoma sabedoria, lei, profetas, pobres, ricos, Abraao, Raabe, Elias e linguagem de comunidade. O comentario observa que a carta nao apresenta fe e obras como categorias separadas em disputa abstrata. Ela usa exemplos veterotestamentarios para mostrar uma fe que se torna obediencia, misericordia e perseveranca.
13.2 1 e 2 Pedro
1 Pedro emprega linguagem de exodo, povo santo, sacerdocio, pedra, sofrimento e esperança. A igreja e descrita com vocabulario de Israel, mas em uma situacao de dispersao e testemunho. O sofrimento dos crentes e interpretado a partir de Cristo e dos padroes dos profetas.
2 Pedro retoma juizo, anjos, diluvio, Sodoma, Balaao e dia do Senhor. O diluvio funciona como modelo de juizo e preservacao. A carta nao esta apenas contando historia antiga; esta advertindo uma comunidade sobre falsos mestres e a certeza de uma intervencao futura.
13.3 Joao e Judas
As cartas joaninas usam temas de luz, verdade, amor, mundo, testemunho e anticristo em um ambiente biblico, ainda que as citacoes explicitas sejam menos numerosas. Judas usa exemplos e tradicoes antigas para denunciar rebeldia e falso ensino. A comparacao com 2 Pedro ajuda a discernir relacoes literarias e diferentes adaptacoes pastorais.
14. Apocalipse
Apocalipse e o corpus em que o Antigo Testamento esta mais disseminado e menos concentrado em citacoes formais. Daniel, Ezequiel, Isaías, Exodo, Zacarias, Genesis, Salmos e Deuteronomio fornecem imagens, estruturas, nomes, cenas e contrastes.
14.1 Trono, cordeiro e culto
As visoes do trono e do Cordeiro combinam linguagem de realeza, santuario, sacrificio e vitoria. O cordeiro morto e vivo reorganiza expectativa de poder: a vitoria escatologica ocorre por meio da morte sacrificial e da exaltacao. A liturgia celestial ecoa templo e culto, mas aponta para uma realidade que ultrapassa o santuario terrestre.
14.2 Exodo, pragas e nova libertacao
As pragas, canticos, aguas, testemunhas e juizos evocam Exodo. A cidade opressora e julgada; um povo e preservado; a libertacao se torna universal e final. A obra evita chamar cada semelhanca de copia. O que importa e observar como o autor recombina padroes para apresentar a consumacao.
14.3 Nova criacao e novo templo
Apocalipse 21-22 reúne Genesis, profetas, Ezequiel e Isaías. Agua da vida, arvore, cidade, luz, portas, ausencia de morte e presenca divina formam uma imagem de restauracao. O novo templo nao e simplesmente outro edificio; a presenca de Deus e do Cordeiro enche a cidade.
14.4 Apocalipse 22 e Daniel
O comentario localiza uma relacao importante entre a abertura do livro de Daniel e a abertura final da visao apocaliptica. O que antes deveria permanecer selado agora e aberto porque o tempo do cumprimento chegou. A relacao entre Daniel e Apocalipse nao e apenas vocabular; e uma releitura da temporalidade da revelacao.
14.5 Advertencia final e Deuteronomio
As advertencias contra acrescentar ou retirar palavras da profecia sao relacionadas a logica de alianca de Deuteronomio. O final do Apocalipse se apresenta como palavra autorizada que exige fidelidade. Esse eco serve tanto para fechar o livro quanto para situar sua autoridade dentro da tradicao biblica.
15. O que a obra demonstra em conjunto
15.1 A unidade nao e uniformidade
Mateus, Paulo, Hebreus e Apocalipse leem o Antigo Testamento de formas diferentes. A unidade do canon nao elimina genero, situacao, vocabulário ou estilo. O comentario permite ver uma unidade teologica com diversidade literaria.
15.2 O contexto original importa, mas nao encerra o sentido
Os colaboradores retornam constantemente ao contexto do Antigo Testamento. Isso impede alegoria arbitraria. Ao mesmo tempo, eles reconhecem que os autores do Novo Testamento leem a Escritura dentro de uma historia que avanca. O sentido posterior nao e simples repeticao nem cancelamento do anterior.
15.3 A ressurreicao muda a leitura
Os discipulos nao sao apresentados como pessoas que previram com clareza todos os detalhes da cruz. A experiencia de Cristo morto e ressuscitado, o Pentecostes e a expansao da igreja reorganizam sua compreensao. Depois, eles passam a afirmar que as Escrituras ensinavam aquilo, e procuram demonstrar essa afirmacao textualmente. A categoria de misterio nasce para explicar como algo podia estar prometido e oculto ao mesmo tempo.
15.4 A cristologia esta dentro da leitura biblica
Quando textos sobre YHWH sao aplicados a Jesus, quando Jesus recapitula Israel, quando recebe linguagem de rei, servo, filho, pastor, templo ou sabedoria, a cristologia nao esta sendo anexada de fora. Ela e construída por meio da leitura das Escrituras. A doutrina posterior da Trindade encontra aqui uma raiz interpretativa.
17. Limites e cuidados criticos
O volume e multi-autoral e possui variacao entre colaboradores. Nem todos apresentam o metodo das seis perguntas com a mesma ordem ou extensao. Isso e coerente com a liberdade dada pelos organizadores, mas impede uma falsa uniformidade.
As alusoes sao uma zona de probabilidade. Algumas sao inequívocas; outras sao plausiveis; outras dependem de uma rede tematica dificil de provar. O resumo deve preservar essas gradações e nao converter todas em fatos certos.
O livro nao esgota os debates sobre tipologia, intertextualidade, exegese judaica e historia da interpretacao. Tambem reflete conviccoes teologicas evangelicas sobre unidade canonica, autoridade das Escrituras e cumprimento em Cristo. Isso nao invalida seu valor documental, mas deve ser informado ao assinante para que ele saiba de que horizonte interpretativo o comentario trabalha.
18. Como o assinante deve usar o comentario
O uso ideal ocorre em quatro movimentos. Primeiro, localizar a passagem do Novo Testamento e ler sua unidade literaria. Segundo, consultar o comentario para identificar a fonte veterotestamentaria e seus contextos. Terceiro, comparar as discussoes textuais e hermeneuticas. Quarto, voltar ao texto biblico e formular a aplicacao teologica com as qualificacoes aprendidas.
O leitor nao deve usar o comentario como banco de provas para uma conclusao ja decidida. O metodo do livro convida a observar alternativas. Em alguns casos, o colaborador discute se uma alusão e realmente intencional; em outros, distingue dependencia literaria de linguagem biblica geral. Essa honestidade e parte do valor da obra.
Para pregacao e ensino, a obra ajuda a evitar dois erros. O primeiro e usar o Antigo Testamento como colecao de frases que confirmam qualquer ideia. O segundo e aceitar apenas citacoes formais e perder a estrutura canonica, simbolica e tipologica. A leitura madura combina texto, contexto, historia e teologia.
19. Sintese final
O Comentario do uso do Antigo Testamento no Novo Testamento mostra que a relacao entre os dois testamentos e uma das principais formas pelas quais o Novo Testamento explica sua propria identidade. Os autores neotestamentarios nao tratam as Escrituras de Israel como arquivo superado nem como banco de slogans. Eles as leem como palavra autorizada dentro de uma historia que chega a um novo estagio em Cristo.
O comentario demonstra essa tese por uma massa de casos. Mateus apresenta Jesus como aquele que recapitula Israel e cumpre padroes de exodo, filho, rei, servo e templo. Marcos e Lucas usam caminhos de deserto, promessa, Espirito e restauracao. Joao faz das festas e simbolos do Antigo Testamento uma moldura para a gloria do Verbo encarnado. Paulo interpreta Abraao, lei, exodo, Adao, Davi, templo e nova criacao a partir da cruz e da ressurreicao. Hebreus encontra no sacerdocio, no culto e na alianca uma preparacao para a obra superior de Cristo. As cartas gerais aplicam padroes de santidade, sofrimento e juizo. Apocalipse reorganiza o canon em visao de nova criacao, novo templo e vitoria do Cordeiro.
O metodo que sustenta tudo isso e uma leitura em camadas: contexto do Novo, contexto do Antigo, judaísmo antigo, tradicao textual, tipo de uso e aplicacao teologica. O resultado nao e uma regra simples para decifrar todas as alusoes. E um treinamento de discernimento.
20. Gates de qualidade desta versao
- Escopo confirmado: introducao, corpus de Mateus a Apocalipse, colaboradores e paginacao estrutural mapeados.
- Arquitetura coberta: organizadores, metodo, tipos de uso, padroes teologicos e todos os principais corpora do Novo Testamento.
- Distincao editorial: descricao da obra, sintese do projeto e avaliacao Eremites separadas.
- Anti-plagio: sem reproducao substitutiva; citacoes diretas longas evitadas; conteudo reorganizado analiticamente.
21. Desenvolvimento adicional do metodo em casos concretos
O valor do metodo aparece melhor quando se acompanha a mudanca de uma pergunta para outra. Em uma citacao explicita, a busca pode parecer simples: localizar o texto no Antigo Testamento e comparar palavras. Mas a analise completa mostra que cada passo altera a leitura.
Se o Novo Testamento usa um texto da Septuaginta, a semelhanca verbal pode ser maior do que com o hebraico preservado em edicoes posteriores. Isso nao prova que o autor ignorava o hebraico. Pode indicar que sua forma de Escritura circulava em grego, que a tradicao textual ja possuia variantes ou que o autor adaptou a citacao para seu argumento. O comentario coloca essas alternativas lado a lado.
Se o texto antigo parece tratar de uma pessoa ou episodio historico e o Novo Testamento o aplica a Cristo, a pergunta nao pode ser respondida apenas com “sentido original” ou “sentido novo”. E preciso observar se o Antigo Testamento ja ampliava o tema, se outros textos retomavam o mesmo padrao, se a linguagem inclui representante corporativo e se a historia de Jesus e apresentada como recapitulação.
Se uma alusao e breve, o contexto neotestamentario se torna ainda mais importante. Uma palavra comum pode adquirir peso por estar junto de outras imagens do mesmo campo. O comentario considera acumulacao de sinais: vocabulario, ordem narrativa, tema, citações proximas, estrutura e funcao. Ainda assim, mantem a diferenca entre uma alusão provável e uma dependencia demonstravel.
22. Desenvolvimento adicional: texto, traducao e memoria escritural
A relacao entre texto hebraico e Septuaginta e uma das areas tecnicas mais importantes do volume. O Novo Testamento foi escrito em grego e seus autores podiam conhecer a Escritura em grego, em hebraico, em aramaico ou por combinacoes de tradicao oral e escrita. A citacao pode acompanhar a Septuaginta, alterar sua forma, combinar elementos ou preservar uma leitura textual diferente.
O comentario nao trata traducao como detalhe sem teologia. Uma escolha grega pode destacar um sujeito, um tempo verbal, uma imagem ou uma relacao que se torna funcional no argumento neotestamentario. Ao mesmo tempo, uma diferenca nao deve ser automaticamente transformada em estrategia teologica consciente. Ha casos de adaptacao retorica, memoria textual e normalizacao de linguagem.
A memoria escritural e outro fator. Um autor profundamente formado pelas Escrituras pode lembrar uma passagem sem reproduzi-la palavra por palavra. Ele pode combinar dois textos ou carregar uma frase com ecos de varios lugares. Essa memoria nao significa imprecisao casual. A Escritura funciona como ambiente linguistico e imaginativo.
Para o leitor, isso implica um cuidado pratico: nao se deve usar uma concordancia de palavras como unico metodo. A pesquisa precisa considerar sintaxe, semantica, tema, ordem da narrativa, alusoes em cadeia e desenvolvimento canonico.
23. Mateus em maior detalhe
23.1 Genealogia, mulheres e exilio
A genealogia de Mateus nao e simples registro biografico. Ela apresenta uma historia de promessa que passa por Abraao, Davi, reis, crise, exilio e retorno. As mulheres mencionadas evocam episodios de irregularidade, risco e intervencao providencial. A historia messianica nao avanca por uma linhagem moralmente limpa, mas por uma providencia que atravessa pecado e fragilidade.
O exilio aparece como chave. A genealogia organiza a historia em etapas e prepara a pergunta sobre o rei que vem depois da crise. O nascimento de Jesus nao e um episodio desconectado da historia de Israel; ele e a resposta messianica dentro de um povo marcado por promessa e juizo.
23.2 Emmanuel, Belém e a voz do profeta
O uso de Isaías em Mateus envolve nascimento, presenca divina e identidade do menino. O colaborador precisa discutir o contexto de Isaías, a forma textual e a maneira como Mateus integra o sinal em sua narrativa. Nao basta dizer que a profecia “previu” o nascimento; e preciso explicar o tipo de relacao entre sinal historico e consumacao messianica.
Miqueias e usado em relacao a Belém e ao governante. A citacao participa do conflito entre poder politico, expectativa judaica e nascimento humilde. O local nao e um dado geografico neutro; ele evoca a origem davídica e a expectativa de um pastor-rei.
23.3 Exodo, deserto e obediencia
Depois do Egito, Jesus passa pelo deserto. O paralelo com Israel nao e superficial. O numero quarenta, a fome, a citacao de Deuteronomio, a prova e a resposta obediente formam uma narrativa de filiacao. Israel e chamado filho; Jesus e Filho que realiza em obediencia a vocacao do povo.
As bem-aventurancas, o monte, a lei e a autoridade de Jesus tambem entram no debate sobre Moises. Mateus apresenta continuidade com a revelacao anterior e uma autoridade que a leva a sua intencao. A expressao de cumprimento deve ser lida no conjunto das antiteses, da pratica da justica e da relacao entre interioridade e mandamento.
23.4 Reino, templo e juizo
As imagens de reino, templo, pedra, vinha, pastor e banquete participam da identidade de Jesus e do juizo sobre liderancas. A parabola e os discursos de Mateus evocam historias de Israel e advertencias profeticas. O comentario mostra como o evangelho usa o Antigo Testamento para explicar tanto a oferta do reino quanto a rejeicao e a responsabilidade.
23.5 Morte e ressurreicao
Na paixao, os Salmos do justo sofredor e as imagens de Zacarias e Isaías ajudam a formular uma morte que e ao mesmo tempo rejeicao, sofrimento, reinado e cumprimento. Na ressurreicao, a autoridade do Filho e a reuniao dos povos abrem uma fase missionaria. O mandato aos discipulos nao aparece como expansao religiosa sem raiz, mas como desdobramento da promessa de bencao as nacoes.
24. Marcos em maior detalhe
Marcos tende a usar o Antigo Testamento de forma mais integrada ao enredo. A abertura reune exodo, profecia, caminho e deserto. A voz que prepara o caminho interpreta a chegada de Jesus como visitação divina e como inicio de uma nova etapa.
O conflito com poderes impuros, enfermidade, mar, fome e endurecimento pode ser lido em relacao a historias de dominio e libertacao. O comentario evita afirmar uma alusao forte em todo episodio, mas observa como temas de exodo, novo Adão e pastor de Israel funcionam no conjunto.
Na transfiguracao e na paixao, Moises, Elias, nuvem, voz, Filho, servo e salmo convergem. Jesus e o Filho que deve sofrer, e o discipulado precisa compreender que o caminho do reino passa pela cruz. A dificuldade dos discipulos e parte da teologia narrativa do evangelho: eles esperam gloria sem integrar o padrao do servo.
25. Lucas e Atos em maior detalhe
Lucas usa a linguagem dos profetas para descrever o ministerio aos pobres, libertacao, cegos, presos e quebrantados. A leitura de Isaías no programa de Jesus e vinculada ao tema do jubileu, da restauracao e da rejeicao profetica.
As narrativas da infancia articulam Abraao, Davi, exodo, Hannah, salmos e expectativa de Israel. Maria, Zacarias e Simeao interpretam os acontecimentos dentro da historia de promessas. A salvacao que chega em Jesus e particular e universal: nasce dentro de Israel e se abre as nacoes.
Em Atos, a ressurreicao e explicada com salmos reais e promessas davídicas. O Espirito em Pentecostes e lido por Joel. A comunidade passa por um novo momento de testemunho e missao, sem deixar de ser herdeira da historia de Israel.
Discursos de Pedro, Estevao e Paulo mostram que a Escritura e campo de disputa interpretativa. A morte de Jesus nao e acidente sem sentido; ela ocorre dentro de uma historia que inclui rejeicao de enviados, sofrimento de justos e promessa de restauracao. A missao aos gentios e apresentada por meio de profetas, visoes e decisao comunitaria.
26. Joao em maior detalhe
O quarto evangelho le o Antigo Testamento por ecos e sinais. Genesis aparece no prologo; o exodo reaparece em agua, alimento, travessia e presenca; o templo aparece em torno do corpo de Jesus; a sabedoria e associada ao Verbo e a revelacao.
As festas fornecem estrutura para o ministerio. Pascoa, tabernaculos e dedicacao tornam-se ambientes em que Jesus redefine agua, luz, pao, pastor e templo. O comentario deve manter o contexto judaico e a releitura cristologica juntos. Uma festa nao e apagada; seu simbolismo e levado a uma afirmacao sobre Jesus.
O episodio do maná e importante para o discurso do pao da vida. A diferenca entre alimento temporario e vida definitiva retoma a experiencia do deserto e a intensifica. A agua oferecida por Jesus e relacionada a sede, templo e Espirito. A luz e ligada a criacao, exodo e revelacao.
Na paixao, o cordeiro, os ossos, a transfixao, o rei e o sepultamento participam de uma teologia em que o crucificado e simultaneamente sacrificio, rei e lugar de gloria. A ressurreicao nao encerra o uso da Escritura; confirma a forma como o evangelho le a historia.
27. Paulo em maior detalhe
27.1 Adao, Cristo e nova humanidade
A comparacao entre Adao e Cristo em Romanos e 1 Corintios utiliza Genesis para interpretar pecado, morte, obediencia, imagem, corpo e ressurreicao. O comentario mostra que Paulo nao usa Adao apenas para explicar uma doutrina abstrata do pecado original. Ele interpreta a humanidade em dois regimes: o de Adao, marcado por morte e desobediencia, e o de Cristo, marcado por justica, vida e ressurreicao.
27.2 Exodo como advertencia
1 Corintios 10 e um dos exemplos em que eventos do exodo se tornam tipos e advertencias. A comunidade recebeu agua, alimento e sinais, mas muitos cairam por idolatria e desejo desordenado. Paulo usa a historia para ensinar que privilegios religiosos nao substituem fidelidade.
O texto tem efeito pastoral imediato. O passado de Israel funciona como espelho, mas nao de forma alegorica arbitraria. Ha uma correspondencia de situacao: povo redimido, sinais recebidos, tentacao, idolatria e necessidade de perseveranca.
27.3 Promessa, lei e descendencia
Em Galatas, a promessa abraamica fornece prioridade historica e teologica. A lei nao anula a promessa; ocupa uma funcao posterior e provisoria. Cristo e a descendencia e a bencao alcanca gentios pela fe.
O comentario discute a diferenca entre ler a lei como caminho atemporal de justificacao e le-la como parte da sequencia da historia. Paulo escolhe a segunda via. A cronologia nao e um detalhe; e o argumento.
27.4 Remanescente e misericordia
Romanos 9-11 retoma a historia de Israel para pensar eleicao, endurecimento, remanescente, gentios e promessa. O uso de Farao, Oseias, Isaías, Elias e salmos constrói uma teologia em que misericordia, juizo e fidelidade divina se encontram.
O comentario evita resolver o conjunto por uma formula de substituicao simples. Israel, gentios e igreja aparecem em uma historia complexa, e a imagem da oliveira exige humildade dos enxertados. A promessa e a misericordia continuam sendo a base.
27.5 Templo, corpo e reconciliação
Efesios e Colossenses deslocam temas de templo e presenca para Cristo e sua comunidade. A nova humanidade e um edificio espiritual, mas essa linguagem nao e apenas metafora decorativa. Ela sustenta uma eclesiologia de reconciliacao: judeus e gentios sao aproximados por Cristo.
Em Colossenses, a plenitude, a imagem e a reconciliacao cosmica apresentam Cristo como centro da criacao e da nova criacao. A relacao com sabedoria, templo e presenca ajuda a compreender por que a cristologia nao e apenas uma doutrina sobre o individuo Jesus, mas uma afirmacao sobre toda a realidade.
28. Hebreus e o sistema cultico
Hebreus nao usa o Antigo Testamento como um conjunto de exemplos secundarios. Sua argumentacao depende da estrutura cultica. Tabernaculo, sacerdocio, sangue, acesso, descanso, purificacao, alianca e sacrificio formam uma rede.
O Salmo 110 sustenta a figura do sacerdote-rei. Melquisedeque permite falar de um sacerdocio que nao se reduz a genealogia levitica. Jeremias 31 permite falar de nova alianca escrita no coracao. O deserto fornece a advertencia contra endurecimento e abandono.
O antigo culto e sombra e figura em relacao a Cristo, mas isso nao significa que fosse enganoso. Ele tinha funcao pedagogica e tipologica. A superioridade de Cristo se manifesta na definitividade, no acesso, na consciencia purificada e na eficacia do sacrificio.
29. Apocalipse e a saturacao canonica
O comentario de Apocalipse requer um metodo diferente de uma lista de citacoes. O autor trabalha com mosaicos de imagens. Daniel fornece besta, trono, filho do homem e livros; Ezequiel fornece templo, seres viventes, rio e cidade; Exodo fornece pragas e libertacao; Isaías fornece nova criacao e glória; Zacarias fornece lampadas, cavalos, oliveiras e combate; Genesis fornece arvore, serpente, jardim e morte.
O sentido nasce da combinacao. A besta nao deve ser lida apenas por Daniel; a cidade nao deve ser lida apenas por Ezequiel; a arvore nao deve ser lida apenas por Genesis. O autor reune tradicoes para anunciar que a historia chega a sua consumacao.
A igreja e apresentada como povo peregrino, testemunha e templo. O Cordeiro reinterpreta poder e vitoria. Babilonia reune idolatria, opressao e riqueza; a nova Jerusalem reune presenca, pureza, luz e vida. O contraste e politico, liturgico, moral e escatologico.
30. Contribuicao e limites metodologicos
O maior ganho do volume e a abundancia de evidencia concreta. Ele reduz a distancia entre uma tese sobre o uso do Antigo Testamento e a pratica de ler centenas de ocorrencias. O leitor pode observar onde uma categoria funciona bem e onde precisa de qualificacao.
O segundo ganho e a combinacao de historia, texto e teologia. A obra nao separa o contexto original do uso posterior como se um anulasse o outro. O terceiro ganho e a atencao a tradicoes judaicas antigas e a fatores textuais, que impedem imaginar que todos os autores operavam com uma Biblia unica e identica em forma.
O principal limite e a variacao entre colaboradores. O segundo e o horizonte teologico compartilhado pelos organizadores, que favorece uma leitura canonica, historico-salvifica e cristologica. O terceiro e a incerteza inevitavel das alusoes. O quarto e o tamanho: o volume oferece um instrumento de consulta, nao uma teoria final da intertextualidade.
31. Status editorial atualizado
O resumo V3 agora deve ser lido como uma sintese extensa de um comentario multi-autoral, e nao como uma ficha breve. A nova versao desenvolve o metodo, os problemas textuais, a arquitetura de Mateus a Apocalipse, os padroes teologicos e os limites de aplicacao. Ela preserva a recomendacao de conferir passagens no volume-fonte quando o leitor precisar de uma conclusao filologica precisa.
Para a entrega ao assinante, o titulo deve ser descrito como comentario analitico expandido e mapa de leitura. Nao deve ser anunciado como substituto da obra de 1.513 paginas nem como concordancia automatica. Seu compromisso e ajudar o leitor a compreender por que e como o Novo Testamento relê o Antigo.